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Ênio Sinedino


O Fenômeno CAZÉ TV

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Há marcos que só ficam evidentes quando alguém os atravessa. Desde 1970, a Copa do Mundo no Brasil tinha dono, sobrenome e endereço fixo: chamava-se GLOBO.

Pois neste 2026, pela primeira vez em mais de meio século, a emissora carioca chega ao Mundial sem a íntegra do torneio nas mãos. E quem ficou com os 104 jogos, todos eles, com exclusividade digital foi a CazéTV — o canal de um vascaíno de 32 anos que, até outro dia, reagia a vídeos de Youtube na sala de casa.

Casimiro Miguel não veio de berço de ouro nem de escola de jornalismo. Estreou comentando games no extinto Esporte Interativo, onde, sem saber, conheceu os futuros sócios da LiveMode — a produtora que hoje opera a CazéTV. O salto veio em 2020, no pior momento possível: pandemia, país parado, pais desempregados. Foi reagindo a partidas e a vídeos aleatórios, da poltrona de casa, que o rapaz começou a sustentar a família. Onde a maioria via uma economia em frangalhos, ele viu uma plateia órfã de companhia.

Dois anos depois, na Copa do Catar, nascia a CazéTV. Quatro anos depois, ela transmite o Mundial inteiro enquanto a Globo administra um pacote — generoso, diga-se, de 54 jogos, 30 patrocinadores e a expectativa de faturar cerca de R$ 2 bilhões. Generoso, mas pacote. Não mais o combo completo.

A medida do fenômeno não está nos contratos, e sim na audiência. No último sábado, Brasil e Marrocos levaram a CazéTV a 12,7 milhões de espectadores simultâneos — o maior pico ao vivo da história do YouTube, no mundo. Não no Brasil: no mundo. Um número que nenhuma emissora de televisão, em qualquer país, jamais sonhou em cravar numa única transmissão pela internet. O streaming do menino da sala de casa virou, da noite para o dia, a maior arquibancada digital que o planeta já viu.

E aqui chegamos à parte que um jornalista não tem o direito de deixar passar. A Globo, que durante décadas tratou a concorrência com a serenidade de quem não tem nenhuma, resolveu ir à propaganda para lembrar ao público uma virtude de suas transmissões: elas não têm delay. O atraso de alguns segundos, defeito conhecido do streaming, virou argumento de venda. É um espetáculo à parte — a líder absoluta de sempre, que nunca precisou apontar o vizinho, agora aponta. O detalhe que arremata a cena: foi justamente com esse tal delay que a CazéTV bateu o recorde mundial. O público, ao que parece, troca de bom grado três segundos de atraso por uma companhia que fala a sua língua e não cobra ingresso.

Seria injusto, porém, reduzir o caso a uma derrota da Globo. Não é. A emissora segue robusta, lucrativa e indispensável a quem prefere a TV aberta e a narração consagrada apesar de desfalques importantes.  O que mudou não foi a qualidade de um lado, foi a geografia do consumo. Uma geração inteira nunca pediu licença ao controle remoto: nasceu apertando o play. A CazéTV não roubou o público da Globo — encontrou um público que a televisão, ocupada em ser soberana, havia esquecido de cortejar. Casimiro entendeu antes dos departamentos de marketing que atenção não se decreta, se conquista, e que intimidade vale mais que tradição e pompa.

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