Na corrida ao Senado no RN, segundo as pesquisas, tem um favorito: Styvenson Valentim.
A menos que um diluvio de proporções bíblicas atinja sua campanha, a cadeira está garantida. O que resta — e é aí que a política de verdade acontece — é a segunda cadeira. É por ela que se briga. E a briga anda feia justamente entre os que, no papel, deveriam ser aliados.
Começa pela governadora Fátima Bezerra. Ela não abriu mão da candidatura ao Senado por grandeza, é importante pontuar. Abriu mão porque não encontrou quem lhe garantisse o essencial — um aliado na cadeira e um sucessor de confiança na governadoria. Desgastada pela própria administração, recuou sem o consolo de escolher o roteiro. Como quem sai de cena e ainda precisa fingir que a saída foi ideia sua, lançou a vereadora Samanda Alves como herdeira. A unção veio. O eleitorado, esse detalhe, ninguém consultou.
Foi quando entrou Rafael Motta e desarrumou a mesa. Ex-deputado federal, ele cometeu dois pecados imperdoáveis: não é do PT e, pior, largou melhor que a candidata do PT. Enquanto Samanda amarga o peso de ser a preferida oficial — carimbo que aqui no estado, costuma atrapalhar mais que ajudar —, Motta desidrata a candidatura da preferida.
A cena de Major Sales resume o enredo melhor que qualquer pesquisa. Inauguraram ali um túnel — sem água. E, no palanque montado para celebrar a obra seca, Rafael Motta só teve lugar porque Lula o chamou. A cúpula estadual do partido, que tentara escondê-lo foi obrigada a engolir a deferência presidencial em praça pública. Constrangimento geral.
O estrago, porém, não fica só do lado do governo. Do outro flanco, a senadora Zenaide Maia que navegava em águas mornas rumo à reeleição, escorada no apoio de cerca de cem prefeitos, sentiu o impacto. Agora Zenaide corre para acomodar o vereador Tércio Tinoco como companheiro de chapa, na tentativa de conter o avanço do adversário sobre o eleitor mais jovem.
E aqui a ironia fecha o círculo. Enquanto a esquerda e o centro se engalfinham por uma vaga — quem assiste à cena de camarote é o Coronel Hélio. Bolsonarista, companheiro de chapa de Styvenson, que não precisou mover uma peça. A instabilidade alheia é o seu programa de governo. Tem a bolha garantida e flerta com a direita menos radical. No momento, ele observa o fratricídio adversário com o sorriso de quem não acredita na própria sorte.
Falta o lance final para embolar de vez a disputa. E ele depende do favorito. Se Styvenson, resolver pôr o Coronel aviador debaixo do braço e pedir voto casado, a segunda vaga vira um exercício de futurologia. Não por mérito da direita — por gentileza da esquerda, que se ocupa freneticamente de disputar consigo mesma e esquecer de disputar a eleição.