Acaba de ser descoberta, no Rio Grande do Norte, uma nova modalidade de violência contra a mulher: a porta assassina. É o que se entende da nota da deputada estadual Divaneide Basílio (PT), agredida na última quinta-feira durante o Ato das Mulheres — evento promovido justamente para combater a violência contra as mulheres.
Segundo a parlamentar, ela foi "atingida quando uma porta foi fechada de forma brusca em meio ao empurra-empurra". Reparem na engenharia da frase. A porta fechou-se. O empurra-empurra empurrou. E ninguém — absolutamente ninguém — fechou ou empurrou coisa alguma. Um acidente paranormal digno de roteiros de Hitchcock.
O detalhe é que o próprio PT não leu o roteiro.
Enquanto a deputada responsabilizava a marcenaria, o partido publicava nota afirmando, com todas as letras, que a companheira "foi vítima de agressão por parte de um agente da Polícia Federal". Ou seja: para a vítima, foi uma porta; para o partido, foi um homem da segurança da primeira-dama Janja, prontamente afastado dos eventos seguintes. As duas versões não cabem na mesma sala. Alguém aqui está faltando com a verdade — e não é a porta.
Some-se a isso a cronologia dos fatos. A agressão aconteceu na quinta. O silêncio durou até que o jornalista Dinarte Assunção revelasse, com exclusividade, no Jornal das 6, da 96 FM. Foi só então — no dia seguinte — que vítima e partido descobriram subitamente a urgência de se manifestar. Antes da denúncia, nada. Nem solidariedade, nem repúdio, nem nota. O episódio caminhava célere para o seu destino natural no PT: o debaixo do tapete.
E se a agressão fosse em um evento de um partido “não progressista", hein?! A esta altura já teríamos manifesto, passeata, ato de desagravo, hashtag e comoção nacional em defesa da mulher violentada. Como o agressor saiu de dentro de casa, baixou-se o volume.
O mais desconcertante, porém, é a postura da própria vítima. Levada a atendimento médico após a agressão, Divaneide faz questão de informar, em nota, que está tudo "esclarecido" e "superado". Uma parlamentar que ergue como principal bandeira o enfrentamento à violência contra a mulher trata a violência sofrida na própria pele com a pressa de quem quer encerrar o assunto antes do café. A coerência mandaria o contrário: denunciar, nomear, cobrar. Escolheu passar o pano.
A nota da deputada ainda se dá ao luxo de uma lição de moral: o episódio prova que "o machismo ainda se manifesta nos mais diversos espaços da sociedade". Concordo plenamente. Inclusive no espaço organizado pelo seu próprio partido, executado por um agente da comitiva oficial, contra uma mulher que ainda estava acompanhada de uma criança, pasmem...
Fica, ao menos, uma certeza pedagógica. No combate à violência contra a mulher, o PT é incansável — desde que o agressor não seja um companheiro. Quando é, a culpa é da porta.