O trecho do vídeo acima tem algo de tragicomédia familiar.
Ontem, Michelle Bolsonaro gravou um vídeo para dizer que foi "apunhalada", “humilhada” e "maltratada ao telefone" — não por um adversário, não por um ministro do Supremo, mas pelo enteado, Flávio Bolsonaro.
O senador, segundo ela, teria dito que a ex-primeira-dama "chegou ontem e não entende de política". A réplica veio à altura do momento: Flávio foi às redes informar que "nada nem ninguém" o aborrece. Traduzindo: A “Direita brasileira” resolve suas divergências como quem lava roupa suja na frente do mercado público.
O estopim foi o Ceará. Enquanto Michelle prega que a direita marche unida com Eduardo Girão, caciques do PL — com a bênção de Flávio — namoram um palanque com Ciro Gomes. Sim, ele mesmo! O mesmo Ciro inimigo declarado de Jair Bolsonaro.
Tudo isso, convém lembrar, num campo que tinha o jogo amplamente favorável. Em abril, a Quaest mostrava Flávio com 42% contra 40% de Lula — vantagem real, fora da margem de erro. Era a senha para um projeto de poder. Bastava não tropeçar. Pois tropeçou: veio o áudio com Daniel Vorcaro, do Banco Master, e os R$ 134 milhões para bancar o filme sobre o pai. A direita conseguiu a façanha de transformar um favoritismo em pauta policial.
E aqui está o ponto que interessa. A direita brasileira virou uma Torre de Babel. Há tantos pré-candidatos quanto vaidades: Flávio, Zema, Caiado e, agora, a própria Michelle, ressuscitada nas pesquisas pelos que já desconfiam do enteado.
Cada um fala um dialeto, ninguém entende o do outro, e a obra que deveria ser uma candidatura segue inacabada, empilhando tijolos de ego.
Compare-se com o outro lado. A esquerda tem suas brigas — e como tem. Mas repare no método. Quando o incêndio começa, fecham-se as janelas, abafa-se a fumaça e, na manhã seguinte, todos repetem o mesmo bordão como se nada houvesse acontecido. Ali a divergência tem prazo de validade curto e morre dentro de casa. É a disciplina de quem entendeu que poder não combina com microfone aberto.
A direita, não: prefere a catarse pública, o desabafo no Instagram, a facada anunciada em alto e bom som.
Não se trata de torcida. Trata-se de gramática política. Uma coalizão que não consegue sequer combinar quem é o pré-candidato — e que discute em rede social se a ex-primeira-dama "entende de política" — não está construindo uma alternativa de poder. Está ensaiando, com o adversário aplaudindo da plateia, o roteiro de mais uma derrota anunciada.
A torre de Babel não ruiu por falta de operários. Ruiu porque, de uma hora para outra, ninguém mais falava a mesma língua.
A direita brasileira que se cuide: o andaime já balança.