Faltam muitos meses para a eleição, mas o ambiente político do Rio Grande do Norte já dá sinais preocupantes de contaminação pela violência. O atentado contra o vereador Cabo Deyvison, em Mossoró, que deixou um morto e o parlamentar ferido, recoloca no debate um tema que costuma surgir sempre que a disputa pelo poder se mistura com a ação do crime organizado, rivalidades locais ou radicalização política.
Ainda é cedo para conclusões. A investigação trabalha com diferentes hipóteses, e qualquer tentativa de enquadrar o episódio antes da apuração seria precipitada. Mas o fato é que o caso ocorre em um estado que acumula episódios traumáticos envolvendo agentes públicos e personagens centrais da vida política.
Em 2022, tiros interromperam um ato de campanha do PT em Macaíba, obrigando a retirada da governadora Fátima Bezerra do local. Na mesma eleição, o fenômeno eleitoral Wendel Lagartixa, então candidato a deputado estadual, conduziu uma campanha cercada por forte tensão, marcada por atentados anteriores dos quais foi vítima, discursos de enfrentamento e acusações envolvendo grupos armados que ganharam repercussão em todo o estado.
Dois anos depois, o assassinato do prefeito Marcelo Oliveira e de seu pai, em João Dias, mostrou de forma dramática até onde podem chegar disputas locais contaminadas por interesses políticos, econômicos e criminosos.
Mossoró convive há anos com a presença ostensiva das facções criminosas. Ao mesmo tempo, é uma das cidades politicamente mais polarizadas do estado. Por isso, a cobrança do vereador para que nenhuma linha de investigação seja descartada parece legítima.
O que se espera agora é uma apuração rápida, rigorosa e transparente. Porque, às vésperas de mais uma eleição, a pior mensagem que o Rio Grande do Norte poderia receber é a de que tiros passaram a fazer parte do debate político.