Lá vem ele. Pernas finas e tortas, lapa de cabeça de joelho, preto retinto, cabelinho baixo, enrolado, o pai não permitia que cescesse de jeito nenhum, dentão de cavalo, de cabeça baixa, pois sabia que bastava entrar na classe para começar a malhação dos seus colegas de sala de aula. Os brancos, filhinhos de classe média baixa, mas que, mesmo assim, se achavam superiores.
Vida doída, vergonha de falar, de se enturmar, na formação dos grupos quase sempre era deixado de lado e os professores é que se encarregavam de encaixá-lo. E tinha que estudar, conseguir boas notas, caso contrário, notas baixas no semestre era certeza de levar peia quando chegasse em casa com o boltim com cores vermelhas.
Na "hora do recreio", encolhido, sem uma pataca no bolso, com olhos gulosos e medrosos, uma fome desgraçada, uma fome de anteontem, só observava os sanduíches, coxinhas, pastéis e refrigerantes passar de mão em mão, nunca para as suas, claro, pois nada era de graça na cantina do Atheneu Norte-rio-grandense, onde estudava no turno da tarde.
Naquele dia, na volta do intervalo, aconteceu uma coisa especial. O professor Arthur Ferreira, passando de sala em sala avisando que seriam iniciados os treinos para a formação do time de futebol, categoria infantil, que disputaria os Jogos Estudantis. Um estalo de alegria, afinal, lá no campo da cosern, na escolinha de Olinto Galvão, todos diziam que TP, abreviação de Tição Preto (exagero de linguagem até no apelido, pois não existe tição de outra cor), era muito bom de bola.
Colocou seu nome na lista e o resto do dia passou sonhando vestindo a camisa verdinha de número 7 do Atheneu, repetindo os dribles de Garrincha, o ídolo maior de seu Botafogo, sendo aceito pelos colegas de classe, admirado pelas meninas, e o fim da rejeição e dos apelidos que o magoavam tanto. pois via os exemplos dos rapazes do handebol, basquete, voleibol que faziam sucesso e eram muito bajulados.
Desde a ida do treinador, data marcada da primeira seleção que seria no campo do Quartel da Polícia, pertinho de sua casa (TP) morava na Cidade Alta, ele ia e voltava, solitário da escola, falando sozinho, narrando seus grandes lances futuros, dribles e gols. E gritava seus gols alto, muitas vezes se dando conta, envergonhado, de algumas pessoas olhando esquisito ao passar por ele, certamente pensando: esse neguinho deve ser doido.
O grande dia chegou. Minha Nossa Senhora! Ficou pasmo, decepcionado ao chegar no local marcado. Pelas suas contas rápidas achou que tinha para mais de cem meninos concorrendo às vagas que seriam, no máximo, de 22, onze titulares e onze reservas e depois ainda ficariam só os 16 inscritos. Era desanimador, não pensava que fossem aparecer tantos candidatos.
E começaram as escolhas: Arthurzinho separava por posição. Goleiro: apareceu somente uns três. lateral, outros poucos, mas quando o professor falou ponta direita, a posição dele, oito braços levantados. Ficou admirado, era gente demais. Bateu aquele desânimo, caramba! Começou a analisar seus concorrentes. Meninos brancos, fortes, bem parecidos. Não ia ter nenhuma chance.
Voltava à lembrança, no entanto, aos elogios. Afinal, era o craque da sua rua e do time da Lanchonete Chapinha que sempre fazia amistosos no interior e nos bairros, quadra e campo, sob o comando de Canela, era sempre decisivo e escolhido como melhor. E era, além disso, o pivô titular do América de Olinto Galvão, ganhando a posição de muito mais que oito concorrentes.
A bola rolou, divididos os times, ficou esperando um bom tempo, mas, enfim, chegou sua vez. Nervoso, com a boca seca, um frio congelante na barriga entrou em campo ao chamado do treinador. Errou a primeira tentativa de drible. O colega reclamou porque ele não deu o passe, ele o mandou tomar no cu. Foi repreendido na hora pelo mestre. Agora lascou de vez, pensou, estava fora pela destemperança que o acompanhava sempre.
No final do treino conseguiu realizar duas jogadas interessantes, mas na sua cabeça não o suficiente para ser selecionado. O palavrão, o destempero o tiraria da seleção. Chegou a hora. Arturzinho Ferreira, professor famoso do futebol e do futebol de salão, com a prancheta na mão, foi perguntando nomes e anotando. TP no seu canto, murcho, de cabeça baixa, nem ousava levantar a vista.
A lista parecia já estar no fim, era o enterro do sonho, estava quase certo disso quando a voz do mestre se elevou, você de camisa azul, seu nome? Era eu, pensou Pretinho. Eu? Questionou. Sim, você, disse o professor. Meu nome é Zé Pretinho, gaguejou, mas me chamam de TP. Tá bom, TP, mas diga seu nome completo, completou sorrindo o treinador.
Ele disse quase gritando de alegria. O mundo se coloriu naquela manhã. Alguns policiais que assistiram ao treino davam risada dele e parecia tecer elogios a seu respeito que, tenso, nem tinha notado. Estava selecionado, começava seu sonho de jogar no Atheneu, depois, um dia, quem sabe, no Botafogo, na ponta direita para ser o segundo Garrincha.

