O Itaú Unibanco admitiu ter cobrado seguros indevidos de centenas de milhares de clientes ao longo de 14 anos, enfrentou uma falha que gerou compras fantasma de até R$ 6 mil e está sendo denunciado por dificultar o afastamento médico de funcionários doentes. São três escândalos em menos de um mês. A pergunta que poucos fazem é: por que o noticiário sobre essas crises é tão tímido quando se trata dos grandes veículos de comunicação?
A resposta pode estar nos contratos publicitários. O setor financeiro e securitário foi o segundo maior investidor em compra de mídia no Brasil em 2024, com R$ 7,9 bilhões, segundo dados da Kantar Ibope Media publicados pelo Meio & Mensagem. O Itaú é um dos protagonistas desse volume.
Só em 2026, o banco lançou a megacampanha "Torcendo Feito Você" para a Copa do Mundo, com presença massiva em TV aberta, mídia digital e out of home, protagonizada por Ronaldo Fenômeno e produzida pela Africa Creative. São peças veiculadas na Globo, em 1.350 painéis digitais apenas em São Paulo, e em todas as grandes plataformas digitais. Esse é o tipo de contrato que sustenta redações.
A relação entre publicidade e cobertura jornalística é um dos temas mais delicados e menos discutidos do jornalismo brasileiro. Não se trata necessariamente de uma ordem direta para silenciar uma reportagem. O mecanismo é mais sutil: veículos que dependem de receita publicitária tendem a moderar o tom, reduzir o destaque ou simplesmente não dar sequência a pautas que possam desagradar grandes anunciantes.
O caso das cobranças indevidas do Itaú é emblemático. Uma prática classificada pelo próprio Ministério Público como de "extrema má-fé", que durou mais de uma década e atingiu centenas de milhares de pessoas, deveria estar nas manchetes principais de todos os portais e telejornais do país. Até agora, a cobertura mais contundente veio de veículos menores e independentes.
O consumidor brasileiro precisa entender que a informação que chega até ele é, em parte, mediada por relações comerciais que nem sempre são transparentes. E é exatamente nesses casos que o jornalismo independente, os criadores de conteúdo e as redes sociais cumprem um papel fundamental: contar o que a grande mídia pode não ter interesse em destacar. O Itaú admitiu a culpa. A pergunta que fica é se alguém, além do Ministério Público e de veículos menores, vai cobrar as consequências.