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Ciro Marques


Segurança

Lembrem-se: Além de liderar aumento de homicídios, RN também foi o estado que menos elucidou assassinatos

Polícia civil | Divulgação/PCBA

O Rio Grande do Norte foi atingido a queima-roupa com duas notícias graves com relação a segurança pública nos últimos dias. A primeira colocou o Estado na lanterna do ranking de elucidação de homicídios. A segunda, na liderança na lista de estados com aumento do número de assassinatos. 

É isso mesmo: se não bastassem as notícias que apontam para a retomada do confronto entre facções nas periferias do RN (que tem uma cobertura quase que ignorada pela imprensa local), as reportagens nacionais deixam claro o clima de terror.  

O dado recente divulgado (o segundo tiro, pode-se dizer assim), 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que apontou que o Rio Grande do Norte registrou o maior crescimento de mortes violentas intencionais do país em 2025, com alta de 19,6%. Há duas semanas, o RN foi apontado também como o estado brasileiro que menos elucida crimes de homicídio, com apenas 9% dos casos resultando em denúncia do Ministério Público, de acordo com o estudo "Diagnóstico sobre a Investigação de Homicídios no Brasil", do Instituto Sou da Paz.

Os dois levantamentos, embora independentes, revelam faces de um mesmo problema estrutural. Enquanto o Brasil como um todo reduziu as mortes violentas intencionais em 8,2% no último ano, o RN foi na contramão, disparando na estatística negativa e destacando-se entre apenas sete estados que apresentaram alta (RN, Rondônia, Acre, Roraima, DF, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro). Ao mesmo tempo, o estado ocupa a última posição nacional em capacidade de investigar e responsabilizar criminosos por assassinatos, atrás até de estados historicamente associados à violência, como Bahia (14%), Piauí e Rio de Janeiro (23%) e Ceará (27%). Na ponta oposta do ranking estão Goiás (86%) e Distrito Federal (81%), que aparecem como referências nacionais.

A conexão entre os dois indicadores não é coincidência estatística, é lógica criminal básica. Quando o Estado falha sistematicamente em identificar, prender e punir autores de homicídios, cria-se um ambiente de impunidade que funciona como incentivo à violência. Criminosos que sabem que a chance de serem responsabilizados é baixíssima, apenas 9 em cada 100 casos resultam em denúncia, têm menos razões para temer consequências. O resultado é justamente o que os números do RN mostram: mais mortes, sem que a engrenagem de Justiça consiga freá-las.

Diante da repercussão do estudo, a delegada-geral da Polícia Civil do Rio Grande do Norte, Ana Cláudia Saraiva, contestou os números apresentados pelo Instituto Sou da Paz, afirmando que o levantamento não utiliza os mesmos critérios adotados atualmente pelos órgãos de segurança pública do estado. Segundo ela, o índice de elucidação de homicídios chega a quase 50% nas regiões atendidas pelas Delegacias Especializadas em Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPPs) e a aproximadamente 35% nas demais cidades potiguares.

Mesmo aceitando os números apresentados pela própria gestão estadual, ainda mais otimistas que os do estudo, a conclusão preocupante permanece: nas cidades sem DHPP, dois em cada três homicídios continuam impunes. E é justamente esse cenário de baixa responsabilização, combinado ao crescimento acelerado das mortes violentas, que expõe uma fragilidade dupla na segurança pública potiguar, incapaz tanto de prevenir crimes quanto de responder a eles com eficácia investigativa.

O estudo do Sou da Paz reforça que estados com melhor desempenho, como Distrito Federal e Minas Gerais, adotam metas claras, monitoramento constante e fortalecimento da perícia técnica, elementos que parecem escassos na estrutura de investigação criminal do Rio Grande do Norte. Enquanto a gestão estadual disputa os números com pesquisadores, a população potiguar segue vivendo, na prática, os efeitos de um sistema que mata mais e pune menos.

NOTA

Entre 2018 e 2025, o Rio Grande do Norte reduziu pela metade o número de homicídios no estado. As mortes violentas intencionais caíram de 1.788 para 873 casos por ano, uma redução de 51%, consolidando o RN entre os estados que mais diminuíram a violência letal no Brasil.

Como reflexo desse avanço, o estado deixou de figurar entre as unidades da Federação que concentravam as cidades mais violentas do país. Hoje, nenhum município potiguar integra a lista das 10 cidades mais violentas do Brasil, realidade que já fez parte do cenário estadual.

A Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social do Rio Grande do Norte (SESED-RN) esclarece que o aumento pontual registrado no número de mortes violentas intencionais entre os anos de 2024 e 2025 deve ser analisado dentro de um contexto histórico mais amplo da segurança pública no estado.

Conforme a série histórica dos indicadores de criminalidade, o Rio Grande do Norte está entre os estados brasileiros que mais reduziram os índices de violência nos últimos anos, resultado de um conjunto de políticas públicas, investimentos, integração entre as forças de segurança e fortalecimento das ações de inteligência, investigação e repressão qualificada ao crime.

Os próprios dados do Atlas da Violência evidenciam esse cenário ao apontarem que o Rio Grande do Norte registrou, entre 2023 e 2024, uma das maiores reduções de mortes violentas do país. No período, o estado reduziu em 20,3% o número de mortes violentas, passando de 838 para 655 ocorrências.

A SESED-RN ressalta que os indicadores criminais são dinâmicos e refletem diferentes fatores, entre eles a atuação de organizações criminosas e os conflitos entre facções, fenômeno observado em diversas unidades da Federação.

O Governo do Estado e a SESED-RN permanecem atuando de forma integrada, com investimentos em efetivo, tecnologia, inteligência, infraestrutura e operações permanentes, intensificando o enfrentamento às organizações criminosas e reforçando as ações de prevenção e repressão qualificada para preservar vidas e garantir a segurança da população potiguar.

A Secretaria reafirma seu compromisso com a transparência na divulgação dos dados e com a adoção de medidas estratégicas para reduzir os índices de violência e consolidar os avanços alcançados pela segurança pública do Rio Grande do Norte.

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