Documentos apreendidos pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero revelam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aconselhou pessoalmente o banqueiro Daniel Vorcaro a não vender o Banco Master para o BTG Pactual, de André Esteves. O conselho foi dado em uma reunião no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024, encontro que não constou na agenda oficial da Presidência.
O caso foi destaque na edição desta segunda-feira (18), do Jornal 96, que repercutiu a gravidade das informações reveladas pela Gazeta do Povo e pelo portal UOL, com base em material obtido pela investigação policial.
Segundo os jornalistas Fabio Serapião e Natália Portinari, do UOL, um documento da PF mostra que, em abril de 2025, Vorcaro discutiu com seu então sócio Augusto Lima um plano para vender o Master ao BTG pelo valor simbólico de R$ 1.
Na época, o banco já havia sido oferecido ao BRB (Banco de Brasília), mas enfrentava dificuldades por problemas nas carteiras de crédito. A venda ao BRB foi vetada pelo Banco Central em setembro de 2025. Em novembro, o BC liquidou a instituição.
Em mensagens de 10 de abril de 2025, Vorcaro pediu sigilo ao sócio: "Irmão, pelo amor de Deus. Não passe isso pra ninguém." Augusto Lima respondeu: "Lógico irmão. Tá doido." No dia seguinte, os dois se reuniram com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em Brasília. O plano de venda ao BTG não foi adiante.
De acordo com o Poder360, durante a reunião de dezembro de 2024, Lula disse a Vorcaro que ele não deveria vender o banco e que, em breve, o BC teria um novo presidente, referindo-se a Galípolo, então diretor de Política Monetária e já indicado para comandar a autarquia.
A reunião foi articulada pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e contou com a participação do ministro da Casa Civil, Rui Costa, de Galípolo e do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Lula teria sido chamado quando o encontro já estava em andamento.
O contexto que agrava o caso
O encontro aconteceu apenas um mês depois de o Banco Central, ainda sob a presidência de Roberto Campos Neto, convocar Vorcaro para assinar um termo de comparecimento. O documento alertava que o banqueiro tinha 180 dias para resolver os problemas de liquidez do Master.
Ou seja, Vorcaro acessou o presidente da República enquanto o próprio BC já investigava, de forma sigilosa, a situação do banco.
O caso ganha contornos ainda mais graves quando se soma ao escândalo dos áudios entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, revelados na última semana pelo Intercept Brasil. Nas gravações, o senador cobrava R$ 134 milhões para financiar o filme "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O caso Master, portanto, não se limita a um único campo político. Atinge tanto o governo quanto a oposição. A defesa de Vorcaro nega irregularidades e solicitou à Polícia Federal acesso às datas e ao conteúdo das mensagens citadas na investigação.
Imagem divulgada pela Revista Oeste.