A vereadora e pré-candidata ao Senado Samanda Alves resolveu mirar um dos temas mais sensíveis da política brasileira: o atual modelo de emendas parlamentares. Na avaliação da petista, o Senado se transformou em um "balcão de emendas", reduzindo o papel dos senadores à liberação de recursos para estados e municípios, em detrimento da articulação política e da defesa dos interesses estratégicos das unidades da Federação.
A crítica foi dirigida, sobretudo, ao senador Styvenson Valentim, líder das pesquisas para a disputa ao Senado no Rio Grande do Norte. Samanda sustenta que o Estado está sub-representado em Brasília e defende um mandato mais voltado à articulação política, à formulação de políticas públicas e à conquista de projetos estruturantes, citando como exemplo a atuação de Fátima Bezerra quando ocupou uma cadeira no Senado.
O discurso, contudo, suscita algumas perguntas inevitáveis.
A primeira delas diz respeito à própria representação do Rio Grande do Norte. Se o problema é a atuação dos senadores, a crítica alcança apenas Styvenson? Ou também se estende à senadora Zenaide Maia, vice-líder do governo Lula no Senado e eleita em aliança com o PT? Afinal, ambos exercem hoje o mesmo mandato.
A segunda questão envolve o próprio governo federal. O presidente Lula não apenas convive com esse modelo de distribuição de emendas como o utiliza intensamente na relação com o Congresso. Somente nos seis primeiros meses deste ano, o Palácio do Planalto liberou cerca de R$ 32 bilhões em emendas parlamentares — um volume recorde para o período e aproximadamente 30% superior ao registrado em 2022. A medida atendeu à estratégia de reforçar a base aliada às vésperas do calendário eleitoral, evidenciando que as emendas continuam sendo uma das principais moedas de negociação entre Executivo e Legislativo.
Por fim, resta a pergunta mais provocante. Caso seja eleita senadora, o que Samanda pretende fazer de diferente? Defenderá mudanças no atual sistema? Abrirá mão das emendas a que terá direito? Proporá reduzir o volume de recursos destinados aos parlamentares?
É difícil acreditar nessa hipótese. Em Brasília, as emendas deixaram de ser apenas um instrumento orçamentário. Tornaram-se moeda política.
E, quando o assunto é verba pública destinada às bases eleitorais, governo e oposição costumam falar idiomas diferentes apenas no discurso. Na prática, poucos estão dispostos a abrir mão desse poder.
O PT, dentro ou fora do governo, não rasga dinheiro.