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Ciro Marques


Banco Master: Rio de Janeiro não é o único e pelo menos 19 estados e prefeituras investiram bilhões no banco de Vorcaro

Daniel Vorcaro ao dar entrada na Penitenciária de Potim-SP  • Reprodução

A operação da Polícia Federal deflagrada nesta terça-feira (26) revelou que o Rioprevidência transferiu cerca de R$ 3 bilhões ao Banco Master, valor muito superior aos R$ 970 milhões inicialmente conhecidos. A nova fase da Operação Compliance Zero mira diretamente o ex-governador Cláudio Castro (PL) e reacendeu o debate sobre o maior escândalo financeiro envolvendo recursos públicos dos últimos anos. 

O Rio de Janeiro, apesar de concentrar o maior volume, está longe de ser o único ente federativo que colocou o dinheiro de aposentados numa instituição que ruiu por fraudes. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, ao menos 19 fundos de previdência de estados e municípios aplicaram recursos em letras financeiras do banco de Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, todas sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. O rombo total já alcança R$ 3,8 bilhões.

Entre os estados, o Amapá é o segundo caso mais grave. A Amapá Previdência investiu R$ 400 milhões no Master e já foi alvo da Operação Zona Cinzenta, com quatro mandados de busca e apreensão cumpridos em Macapá. O Amazonas também figura na lista, com R$ 50 milhões aplicados, além de um quarto fundo estadual ainda sob sigilo. Nos dois casos, o volume é proporcionalmente devastador para estados com arrecadação limitada e fundos que já operavam no limite.

No campo municipal, o caso mais emblemático é o de Maceió. A capital alagoana é a única capital do Brasil que investiu diretamente no Banco Master, com aportes de R$ 117 milhões realizados pelo Instituto de Previdência dos Servidores (Iprev) durante a gestão do prefeito JHC (PSDB). A Polícia Federal já pediu ao STF a abertura de investigação específica sobre o caso, com suspeita de falsificação e fraude na decisão do Conselho do Iprev que teria liberado o repasse. O agravante é que, proporcionalmente, o valor investido por Maceió supera o que foi aplicado pelos governos do Amapá e do Rio, e o fundo já carregava um rombo atuarial de R$ 299 milhões antes do aporte.

Aparecida de Goiânia, segundo maior município de Goiás, é outro caso que chama atenção. A PF apura que R$ 40 milhões foram aplicados no Master sem autorização do Conselho Municipal de Previdência e com apresentação de dados considerados falsos. O ex-prefeito Vilmar Mariano e o ex-secretário da Fazenda Einstein Paniago estão na mira dos investigadores, que também encontraram evidências de que havia intenção de ampliar o aporte em pelo menos mais R$ 30 milhões.

O interior de São Paulo concentra um número expressivo de casos. São Roque aplicou R$ 93,1 milhões, Cajamar investiu R$ 87 milhões e Araras outros R$ 29 milhões. Cajamar e Santo Antônio da Posse já foram alvos de mandados de busca e apreensão da PF. O padrão se repete: municípios de médio porte, alguns com fundos deficitários, que apostaram no Master atraídos por rendimentos até 40% acima do praticado pelo mercado, um sinal de alerta que foi ignorado ou deliberadamente desconsiderado por gestores.

Há um fio condutor que une todos esses casos. As aplicações ocorreram num período em que o Master já apresentava sinais de fragilidade, os aportes foram feitos em produtos sem garantia do FGC, e em vários municípios as decisões contrariaram pareceres técnicos ou foram tomadas sem autorização dos conselhos de previdência. A Polícia Federal investiga se houve pagamento de comissões a gestores públicos e políticos para facilitar a entrada dos recursos, uma engrenagem que teria funcionado de norte a sul do país.

O Ministério da Previdência foi categórico ao afirmar que a União não vai socorrer nenhum fundo atingido. São os próprios estados e municípios que terão de cobrir o rombo com recursos dos seus tesouros para continuar pagando aposentadorias e pensões. Na prática, o dinheiro que faltará nos cofres de Maceió, Aparecida de Goiânia, Cajamar ou do Amapá é dinheiro que deixará de ir para saúde, educação e infraestrutura. Quem paga a conta, no fim, é o servidor que dedicou décadas ao serviço público e o cidadão que depende desses serviços.

 

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