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Desenrola ou enrola de vez?
Governo libera FGTS, bloqueia bets e promete socorrer 82,8 milhões de inadimplentes em ano eleitoral.
Economistas avisam: não há bala de prata — e os juros continuam onde estão
O Brasil entrou em março de 2026 com 82,8 milhões de inadimplentes. Metade dos lares está endividada e quase um terço da renda familiar é engolida pelo pagamento de dívidas. Foi diante desse cenário — e a um ano da eleição — que o governo federal lançou, ontem , a nova fase do programa Desenrola.
O pacote traz duas novidades de impacto. A primeira autoriza o uso de parte do FGTS para quitação de débitos. A segunda é uma regra inédita: quem aderir ao programa fica automaticamente bloqueado em sites de apostas — as bets, que viraram um dreno silencioso na renda das famílias brasileiras.
O foco declarado é a inadimplência familiar e precoce.
A conta que não fecha
Economistas, no entanto, receberam o anúncio com ressalvas. Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, resumiu o ceticismo do setor: "Não existe uma solução mágica, uma bala de prata que vai resolver tudo."
A leitura é a seguinte: o tamanho do endividamento brasileiro está diretamente ligado ao patamar dos juros, e os juros não caem porque as contas públicas seguem desarrumadas. Sem ajuste fiscal, o Desenrola alivia a ferida — mas não cicatriza.
O cálculo eleitoral
Por trás da medida econômica, há aritmética de urna. Em ano de eleição presidencial, o governo aposta em ações de impacto direto no cotidiano para reverter o mau humor do eleitor e recuperar a popularidade do presidente Lula. Não há como fugir dessa leitura.
O Desenrola entra em campo, portanto, com duas missões simultâneas: aliviar o orçamento das famílias e desafogar o orçamento político de Brasília.
Resta saber qual das duas dívidas o programa vai conseguir, de fato, desenrolar.
Com informações do podcast O Assunto, da GloboNews.