Em Brasília, parte da bancada federal do Rio Grande do Norte se dedica há décadas a uma especialidade que não tem nada de nova: travar recursos destinados ao próprio estado.
Funciona sempre do mesmo jeito — se o governador é de um grupo, o deputado ou senador adversário telefona ao ministério, pede uma "reavaliação", e a obra morre na praia.
Resultado: Hospital sem tomógrafo, escola sem reforma, estrada sem asfalto. Tudo para que o rival não se beneficie eleitoralmente.
Não é prática inaugurada nesta legislatura, nem na anterior. É vício antigo, herdado, repassado de mandato a mandato como se fosse patrimônio cultural do estado.
Mudam os nomes, mudam os partidos, mudam os palanques — o método continua o mesmo. O cinismo apenas ganhou um verniz mais sofisticado: agora se chama "articulação política".
A conta nunca é paga pelo parlamentar. É paga pela mãe que esperava uma UPA, pelo homem do campo que dependia da estrada, pelo aluno da escola inacabada.
O deputado segue de jatinho e diária garantida. Em alguns casos, o mesmo sujeito que travou a obra reaparece meses depois reclamando do abandono — manobra que, em qualquer outra profissão, daria cadeia.
Em política, dá entrevista coletiva.
Resta a esperança — talvez a única reforma que de fato importa — de que uma nova geração de políticos potiguares tenha coragem de romper esse ciclo. Gente que entenda, enfim, que servir ao Rio Grande do Norte não é o mesmo que servir-se dele. O potiguar já esperou tempo demais para descobrir a diferença.