Alimentos ultraprocessados, presentes com frequência na rotina de muitas famílias, podem ter impacto direto na saúde respiratória das crianças. Um estudo publicado na revista Allergy em 5 de maio aponta que o consumo elevado desses produtos está associado a um risco significativamente maior de desenvolver asma nos primeiros anos escolares.
A pesquisa acompanhou 691 crianças na Espanha por cerca de 3,4 anos, dentro do projeto SENDO, que investiga fatores ligados ao desenvolvimento infantil. No início do estudo, os participantes tinham entre 4 e 5 anos de idade. Ao longo do acompanhamento, os pesquisadores analisaram a alimentação e monitoraram o surgimento de doenças respiratórias e alérgicas.
Os dados mostram que crianças que consumiam mais de 30% das calorias diárias a partir de ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos e cereais açucarados, apresentaram um risco quase quatro vezes maior de desenvolver asma em comparação com aquelas que tinham uma ingestão menor desses produtos.
Como a alimentação foi analisada
Para entender o padrão alimentar das crianças, os pais preencheram questionários detalhados sobre o que os filhos consumiam no dia a dia. Os alimentos foram classificados com base no sistema NOVA, que organiza os itens de acordo com o grau de processamento.
Além da dieta, os pesquisadores consideraram outros fatores que poderiam influenciar os resultados, como peso corporal e tempo de exposição a telas. Todos os anos, os responsáveis informavam se as crianças haviam recebido diagnóstico de asma ou outras condições alérgicas.
Com essas informações, a equipe conseguiu identificar uma relação consistente entre o consumo de ultraprocessados e o surgimento da doença respiratória.
“Um maior consumo de alimentos ultraprocessados pode estar associado a um risco aumentado de desenvolvimento de asma em crianças em idade escolar”, destacam os autores.
Relação mais forte com asma
Os resultados indicam que não é apenas a presença desses alimentos na dieta que importa, mas também a quantidade. Quanto maior a proporção de ultraprocessados no dia a dia, maior parece ser a probabilidade de diagnóstico de asma.
Por outro lado, o estudo não encontrou associação clara entre esse tipo de alimentação e outras doenças alérgicas. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que os ultraprocessados possam provocar inflamações que afetam diretamente os pulmões, sem necessariamente envolver mecanismos típicos de alergia.
Diante dos achados, os autores defendem mudanças mais amplas. “Essas descobertas destacam a necessidade de políticas de saúde pública voltadas para a limitação do consumo de alimentos processados na dieta infantil como estratégia preventiva”, afirmam.
Embora o estudo não prove uma relação de causa e efeito, os resultados reforçam a importância de olhar com mais atenção para a qualidade da alimentação infantil e seus possíveis impactos a longo prazo.