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Ênio Sinedino


Fake news sagrada

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Durante os últimos anos o brasileiro aprendeu uma lição cívica: fake news tem dono, e o dono é a direita.

Foi com essa fé que o ministro Dias Toffoli abriu, em 2019, o inquérito das fake news. O processo ganhou o apelido de "inquérito do fim do mundo" porque não tinha alvo definido, nem prazo, nem limite, e porque nele o Supremo é ao mesmo tempo vítima, investigador e juiz. Alexandre de Moraes assumiu a relatoria com o entusiasmo de quem descobre uma vocação.

Aí Nossa Senhora Aparecida resolveu testar a tese.

Na semana passada, correu nas redes a notícia de que Flávio Bolsonaro, se eleito, tiraria da santa o título de padroeira do Brasil. A história tinha dois ingredientes. O primeiro era uma frase de agosto, em que o candidato prometeu decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo. O segundo era um projeto de lei de 2007, de outro autor e há muito esquecido, que trocava "padroeira do Brasil" por "padroeira dos católicos".

A internet fez o “muído” e a CNBB soltou nota que desmontou a lorota.

Não adiantou. No palanque de Lula em Belém, Janja disse que "o outro lado" quer acabar com a padroeira. O próprio presidente, em entrevista à Band, avisou que mexer com a santa "não é aceitável". A jornalista Adriana Araújo lembrou que aquilo era fake news. Lula respondeu com a franqueza de quem já fez as contas do voto católico: "Eu não sei se foi fake news."

Tradução: pode até ser mentira, mas está rendendo.

Nada disso é inédito. Em 2006, Geraldo Alckmin foi acusado de querer privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa. Hoje é vice de Lula e, pelo visto, desistiu de vender. Em toda eleição, algum candidato ia acabar com o Bolsa Família. A direita tem o seu próprio museu de horrores, como kit gay e urna fraudada. A diferença é que só um dos lados ganhou um inquérito no Supremo com o seu nome.

E o Supremo, claro, entrou no jogo. André Mendonça, que também é ministro do TSE, a Justiça Eleitoral, mandou tirar do ar as postagens que davam a mentira como verdade, entre elas uma do humorista Antonio Tabet. Flávio Dino derrubou a ordem no domingo, em nome da liberdade de expressão e da liberdade religiosa. É o mesmo Dino que, como ministro da Justiça de Lula, tratava o combate às fake news como cruzada. A campanha de Flávio correu para Luiz Fux, que suspendeu a decisão de Dino e ressuscitou a de Mendonça. Tudo por liminar, que é decisão provisória, até o plenário, a reunião de todos os ministros, dar a palavra final.

Resumo da ópera: quem chamava remoção de post de censura agora pede remoção de post. Quem removia post com gosto descobriu, comovido, a liberdade de expressão. Ninguém mudou de princípio. Mudou de cliente.

E fica uma conta a pagar. A partir de agora, a esquerda perdeu a legitimidade para reclamar das fake news da direita. Quem sobe no palanque com uma mentira nas mãos não pode descer dele fazendo sermão sobre desinformação. A cinco dias do primeiro turno, a padroeira, que já sobreviveu a um chute em rede nacional em 1995, sobrevive também a esta eleição.

Agora, a tese de que só a direita mente, foi quebrada.

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