O futebol brasileiro sempre foi vendido como espaço de sonho popular, onde talento falaria mais alto que a condição social. Mas a realidade parece cada vez mais distante desse discurso. A mensalidade de R$ 190 da Escolinha do ABC é um exemplo claro disso. O valor representa cerca de 11,7% do salário mínimo vigente, que é de R$ 1.621, comprometendo uma fatia significativa da renda de muitas famílias logo para colocar uma criança em atividade esportiva.
Imagine o quão difícil deve ser para um assalariado tirar quase R$ 200 do bolso para pagar a escolinha.
O impacto é ainda maior no primeiro mês. Somando a mensalidade ao custo do uniforme obrigatório, de R$ 135, o gasto inicial chega a R$ 325, o equivalente a aproximadamente 20% de um salário mínimo. Para quem vive com renda apertada, esse valor não é detalhe: é praticamente uma escolha entre o futebol e outras necessidades básicas.
Não estou aqui discutindo a qualidade da estrutura, nem o direito do clube de cobrar por um serviço. O problema é o efeito prático: o futebol de base, cada vez mais, deixa de ser porta aberta para todos e passa a selecionar quem pode pagar. Assim, o “Clube do Povo” corre o risco de formar menos craques da periferia e mais atletas filtrados pelo bolso dos pais. Quando o acesso vira privilégio, o futebol perde sua essência popular.