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Diógenes Dantas


A química entre Lula e Trump sucumbiu à entropia

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No mundo da física e da química, a entropia é frequentemente associada à tendência natural das coisas caminharem da ordem para a desordem. Na política internacional, o conceito ajuda a explicar o que parece estar acontecendo na relação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.

Há menos de um ano, os dois davam sinais de uma convivência surpreendentemente cordial. Após um encontro relâmpago nos corredores da Assembleia Geral da ONU, Trump chegou a falar em "química excelente" com o presidente brasileiro. Vieram depois uma reunião na Malásia e uma visita de Lula à Casa Branca, em maio deste ano, quando os dois passaram três horas à mesa, entre conversas e almoço.

Mas a química sucumbiu à entropia.

Os acontecimentos das últimas semanas revelam uma relação cada vez mais atravessada por ruídos, desconfianças e mensagens desencontradas. Durante a cúpula do G7, na França, Trump mal cumprimentou Lula. Depois, ao ser questionado sobre o Brasil, classificou o país como "politicamente difícil". Em seguida, protagonizou uma cena que misturou desinformação e constrangimento ao afirmar que teria ouvido dizer que "Bolsonaro Jr." havia sido preso e que estava bem nas pesquisas eleitorais — uma aparente confusão entre Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, apontado como o nome da família para a disputa presidencial.

Lula respondeu no mesmo tom. Disse esperar que Trump não se meta nas eleições brasileiras, afirmou que o americano conhece pouco o Brasil e ironizou o sistema eleitoral dos Estados Unidos, prometendo levar uma urna eletrônica no próximo encontro para mostrar ao colega como funciona uma eleição "civilizada".

Não é exatamente o tipo de diálogo que costuma aproximar chefes de Estado.

O pano de fundo também ajuda a explicar a deterioração do ambiente. O tarifaço proposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo americano, a aproximação de Trump com a família Bolsonaro e a crescente contaminação do debate político brasileiro pelo discurso da Casa Branca criaram um terreno fértil para atritos.

A química que Trump dizia existir ainda pode ser recuperada. Na diplomacia, os interesses costumam falar mais alto do que simpatias pessoais. Mas, olhando para as declarações dos últimos dias, a impressão é que a relação entre os dois presidentes entrou numa fase de desorganização crescente.

Ou, para voltar à linguagem da ciência, está sendo governada pela entropia.

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