Ao longo das últimas duas décadas, poucas áreas produziram tantos desgastes políticos para o Partido dos Trabalhadores quanto a segurança pública. E, em meio ao avanço do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), o partido frequentemente se viu acusado por adversários de adotar uma postura excessivamente ideológica, leniente ou distante da realidade enfrentada pela população nas ruas.
A mais recente controvérsia surgiu após declarações do presidente Lula da Silva sobre a decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Lula criticou a medida, e ao comentar a decisão americana, o presidente se referiu às facções como “nossos criminosos”.
A declaração caiu como uma bomba. Ainda mais vindo de alguém que meses atrás disse que os traficantes também eram vítimas dos usuários de drogas, e que alguns jovens roubavam celular para comprar uma cervejinha.
Mas as polêmicas envolvendo o PT e Lula com as facções criminosas não são recentes. Em 2019, uma gravação telefônica grampeada pela Polícia Federal pegou um líder do PCC revelando que a facção tinha "diálogo cabuloso" com o PT.
Em 2022, vieram a público trechos da delação premiada do empresário Marcos Valério. Ele afirmou à Polícia Federal que o PT teria mantido conversas com o PCC para negociar a segurança de prefeitos e dirigentes do partido na região do ABC Paulista, além de mencionar um suposto dossiê. Políticos petistas negaram veementemente as acusações.
No primeiro ano da nova gestão Lula, Luciane Barbosa Farias, conhecida como a “dama do tráfico amazonense”, integrante do Comando Vermelho, foi recebida duas vezes por assessores do então ministro Flávio Dino, no prédio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, em Brasília. Ela participou de audiências com dois secretários e dois diretores da pasta, mas seu nome foi omitido das agendas oficiais.
Em março de 2023, o mesmo Flávio Dino entrou no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, para participar de um evento de uma ONG sem nenhuma obstrução e sem a realização de operação policial. O local, formado por 16 favelas, tem o poder dividido pelo Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, as principais facções do estado. Policiais da região são unânimes: ninguém entra na Maré daquela forma sem aval das facções.
Em junho de 2025, já no atual mandato, o presidente resolveu visitar a Favela do Moinho, no centro de São Paulo, onde o presidente anunciou medidas habitacionais. No entanto, quem intermediou a ida do presidente ao local foi uma ONG ligada ao PCC. Desde 2023, membros da associação já se reuniram pelo menos cinco vezes com integrantes do governo, sendo inclusive recebidos em gabinetes de ministros, em Brasília.
O fato é que o crescimento das facções criminosas coincidiu com sucessivos governos petistas em Brasília desde o início dos anos 2000. Quase nada no Brasil cresceu tanto nestes últimos 20 anos como o poder do PCC e do Comando Vermelho, que deixaram de ser organizações regionais para se transformar em estruturas nacionais e transnacionais.