O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) denunciou sete pessoas ligadas à Clínica Assistencial Fortalecer e ao Instituto Feminino Fortalecer, em Montes Claros, no Norte de Minas. O grupo é acusado de manter 15 pessoas em cárcere privado, incluindo nove adolescentes à época dos fatos e quatro mulheres com transtornos mentais. A informação foi divulgada pelo MPMG nesta segunda-feira (19/10).
De acordo com o órgão, os crimes ocorreram entre 2023 e 2026. As vítimas ficavam trancadas, sem acesso a documentos ou telefone, e só podiam falar com familiares uma vez por semana, sob vigilância. Durante o período de internação, eram submetidas ao uso de medicamentos sem prescrição médica, amarradas a camas com faixas de contenção, além de serem vítimas de agressões físicas e trabalho forçado.
Abusos sexuais e ameaças a testemunhas
A denúncia detalha que o proprietário das unidades utilizava a posição de autoridade para praticar abusos sexuais contra as internas. Adolescentes eram levadas a motéis sob a promessa de que receberiam alta antecipada.
Os denunciados respondem por organização criminosa, cárcere privado, tortura, estupro, importunação sexual e coação no curso do processo. O grupo é composto por:
- Proprietário das unidades: apontado como líder da organização;
- Três coordenadoras;
- Uma técnica em enfermagem;
- Um psicólogo;
- Um responsável pela vigilância dos internos.
As investigações, iniciadas em 2024, apontaram que as vítimas sofriam ameaças de morte. Em fevereiro de 2024, minutos antes de adolescentes prestarem depoimento ao MPMG, o proprietário as orientou a negar os abusos. Em novembro de 2025, o acusado abandonou uma adolescente de 15 anos à beira de uma rodovia após fazer ameaças caso ela relatasse os abusos.
Evasão de fiscalização e irregularidades financeiras
O grupo adotava manobras para burlar fiscalizações oficiais. Em novembro de 2025, horas antes de uma operação do MPMG e da Polícia Militar, os internos foram transferidos de madrugada para um espaço de eventos. Em agosto de 2026, durante uma ação policial, cerca de 20 mulheres foram escondidas em uma área de mata.
O MPMG informou que parte das vítimas foi inserida nas clínicas por decisões de internação compulsória custeadas por municípios. A prática é irregular, pois a legislação proíbe internações involuntárias em comunidades terapêuticas, que só podem acolher pessoas voluntariamente. Os pacientes não recebiam acompanhamento técnico nem tratamento de saúde.
Entre 2022 e abril de 2026, a clínica arrecadou mais de R$ 700 mil pagos por pelo menos 23 municípios mineiros, além de valores cobrados diretamente das famílias. As unidades continuaram operando mesmo após interdição judicial em fevereiro de 2025. O descumprimento das ordens judiciais levou a operações de busca, apreensão e prisões em setembro de 2026.