O SUS, a Liga contra o Câncer, dores, mas acima de tudo uma lição de vida, empatia e de amor em meio ao sofrimento de batalhas antológicas pela vida. Eita povo valente! Quantos profissionais competentes, amorosos, presentes e absolutamente invisíveis num mundo tomada pela imbecilidade das futilidades, coisas sem valia. Histórias de arrepiar.
Um casal de idosos, humilde, ele com um câncer maligno,sentindo dores atrozes que nem mesmo a morfina consegue aplacar. E não reclama, mas lamenta sim, pelo sofrimento da companheira. Fica muito triste, confessa, quando vê ela chorando, sem se alimentar, preocupado com a doença que o atormenta. Ele diz que só queria ficar bom para ver ela sorrir e se alimentar de novo. Ele fez biópsia e o carro veio pegá-lo. Vai embora cheio de esperança, inocente, cheio de esperança.
Entra "Seu Manel". Ele tem 88 anos, isso, 88, diz sorrindo: "tenho 20 anos a mais que o senhor e quero viver igual a meu ex-sogro, que morreu com 105". Fez raspagem de próstata, mas conta que já venceu outras "batalhas" contra essa "coisa ruim". Reclama que está com fome, coitado, tomou a anestesia Raqui e só vai poder se alimentar lá por volta das 22h40, e são apenas 17h.
Pede para Adalgisa, sua filha, ligar para sua "véia", Ela não atende. Ele desculpa. "Está na Igreja". Se derrama em elogios à filha. "Ela que cuida de tudo", e desanda a falar de sua vida, onde trabalhou (com Severino Lopes, ex-presidente do Alecrim) e fala dos filhos do primeiro e do segundo casamento. Não deixa claro, mas a primeira esposa não foi legal com ele. E o tempo passa. A fome aperta e o alívio. Por volta das 23h sua comida chega. Ele come, a filha diz que agora ele vai roncar.
Liga Contra o Câncer. Fiquei num quarto pequeno para dois pacientes. Cadeira de acompanhante castigadora, nem minha Mila ou Adalgisa dormem, cochilos sofridos. Nas outras enfermarias, de seis ou mais internos, gemidos, alguns sorrisos e a felicidade estampada nos rostos quando entram os anjos enfermeiras ou médicos.
Sou grato por ter podido receber, sem pagar nada, essas lições de coragem de um povo que tem tão pouco ou quase nada.