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Política

Movimentação de R$ 2 bilhões, R$ 51 milhões no cartão, joias e carros de luxo: PF analisa transações financeiras de Vorcaro em investigação do Master

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — Foto: Ana Paula Paiva/Valor

Procurada, a defesa de Vorcaro disse que os "bens, ativos e movimentações patrimoniais" dele são "registrados, contabilizados e declarados às autoridades competentes".

As informações em posse da Polícia Federal detalham entradas e saídas de recursos no período de janeiro de 2016 a novembro de 2025, às vésperas de Vorcaro ser preso no curso das investigações sobre as suspeitas de fraudes na tentativa de venda do Master ao BRB. Ele foi solto duas semanas depois e hoje está em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica.

O banqueiro é o alvo central da Operação Compliance Zero, que apura fraudes financeiras supostamente cometidas pelo Master. O banco foi liquidado em novembro de 2025, diante das suspeitas de irregularidades e da falta de lastro financeiro para operar. A lei estipula que os administradores das instituições financeiras que tiveram o funcionamento interrompido pelo BC ficam com os bens indisponíveis até "apuração e liquidação final de suas responsabilidades".

Desde que Vorcaro se tornou banqueiro, em outubro de 2019, o padrão de gastos subiu e chegou, em média, a uma movimentação diária de R$ 933 mil. O montante representa o dobro das transações por dia que Vorcaro fazia em média antes de o Banco Central autorizar que ele assumisse o Banco Máxima, rebatizado com o nome Master.

A movimentação financeira inclui R$ 1,38 bilhão em débitos, isto é, valores que deixaram a conta para pagamentos ou transferências, e R$ 1,39 bilhão em créditos, quando recursos foram depositados para Vorcaro. A maior fatia das transações está concentrada em transferências para sócios e parceiros comerciais, aportes e resgates de investimentos, recebimento de dividendos, aplicações em fundos e pagamentos para a Receita Federal.

Entre as principais despesas com compras, está uma joalheira localizada em São Paulo. Foram, ao todo, 16 pagamentos feitos a um único estabelecimento, entre janeiro de 2018 e setembro de 2019, que totalizaram R$ 1,7 milhão.

Vorcaro também transferiu R$ 1,65 milhão em junho de 2020 para uma concessionária de carros de luxo no bairro Santa Lúcia, área nobre de Belo Horizonte. A revendedora exibe em seu catálogo veículos de marcas como Ferrari, McLaren e Lamborghini. Além disso, repassou R$ 1,3 milhão para uma empresa que vende embarcações, registrada na cidade de Guaratuba, no litoral do Paraná.A movimentação financeira revela ainda pagamentos a empresas que revendem grifes de luxo no Brasil, como Yves Saint Laurent, Hermés e Ermenegildo Zegna. As despesas, somadas, chegam a R$ 2,2 milhões com essas marcas.

Os documentos analisados pela PF revelam que Vorcaro desembolsou R$ 51 milhões com cartões de crédito entre 2016 e 2025, o que equivale a uma despesa de R$ 5,1 milhões por ano. O volume chamou a atenção dos investigadores, que analisam os detalhes das transações.

Um dos mecanismos usados pelo Master em suas transçaões eram operações em série com fundos administrados pela gestora Reag, também liquidada pelo Banco Central. As verbas circulavam por uma teia de fundos que investiam em ativos com valores inflados, o que impulsionava artificialmente o balanço do Master. As transações do banco com a Reag começaram em abril de 2024 — daquele mês até às vésperas de ser preso, Vorcaro movimentou R$ 54 milhões nas contas.

Quando o Master foi liquidado, em novembro de 2025, durante a primeira fase da ação, a PF apreendeu um total de R$ 230 milhões em bens dos investigados, em uma lista que incluía Vorcaro e ex-sócios do Master. Entre os objetos, estavam relógios avaliados em R$ 6,15 milhões, obras de arte de R$ 12 milhões; uma aeronave de R$ 200 milhões; e veículos de R$ 9,2 milhões.

Antes de ser preso em novembro do ano passado, o banqueiro mantinha uma rotina de gastos elevados. Nas redes sociais, aparecia em fotos em destinos como Capri, na Itália, Alpes Franceses e St. Barths, uma ilha no Caribe. No Brasil, ele promovia jantares para autoridades dos três Poderes da República em uma mansão avaliada em R$ 36 milhões no Lago Sul, área nobre de Brasília.

Vorcaro também possuía uma casa de veraneio em Trancoso (BA), que tinha 12 suítes e cinco bangalôs em frente ao mar. A propriedade foi comprada por cerca de R$ 280 milhões e era palco de festas. No aniversário de 15 anos de sua filha, em 2023, a celebração contou com atrações caras, como Alok, Dennis DJ e a dupla The Chainsmokers.

Os detalhes sobre as movimentações financeiras de Vorcaro vêm à tona depois de uma mudança no rumo das investigações. Na semana passada, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça determinou que fossem devolvidos à CPI do INSS os dados obtidos a partir das quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático do banqueiro. As informações haviam sido remetidas à presidência do Senado, comandada por Davi Alcolumbre (União-AP), por ordem do ministro Dias Toffoli, ex-relator do caso Master. O magistrado havia decretado sigilo máximo às informações e deixou a relatoria após o desgaste provocado pela revelação de que é sócio de uma empresa dona de um resort que foi vendido para um fundo ligado ao cunhado de Vorcaro.

Antes de ser encaminhado à CPI, o material foi remetido à Polícia Federal, que vai ser responsável pelo compartilhamento com os congressistas, que vêm fazendo uma ofensiva para ouvir o banqueiro. A convocação para ir à comissão já havia sido aprovada, mas uma decisão do STF tornou a ida facultativa. Os integrantes do colegiado tentam agora uma nova data.

"A defesa de Daniel Vorcaro repudia a continuidade de vazamentos seletivos de informações, descontextualizadas e sem relevância jurídica para o processo, inclusive envolvendo elementos aos quais a própria defesa não teve acesso.

A divulgação fragmentada de dados sigilosos, especialmente aqueles de caráter pessoal, favorece ilações que não contribuem para a apuração técnica dos fatos e prejudicam o pleno exercício do direito de defesa, princípio essencial do devido processo legal.

A defesa esclarece ainda que todos os bens, ativos e movimentações patrimoniais de Daniel Vorcaro são regularmente registrados, contabilizados e declarados às autoridades competentes, com os respectivos tributos devidamente recolhidos.

Daniel Vorcaro reafirma sua confiança nas instituições e seguirá colaborando integralmente com as autoridades, certo de que os fatos serão analisados com base em elementos técnicos, dentro das garantias legais e constitucionais."

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