A VITÓRIA DE PIRRO
A direita comemorou. Houve grito, palavra de ordem, abraço fraterno, vídeo viral. Jorge Messias, o evangélico do Lula, foi devolvido ao remetente pelo Senado, e o bolsonarismo decretou em rede nacional que tinha derrotado o Planalto na Praça dos Três Poderes. Festa bonita. Faltou apenas um detalhe: o defunto que estavam velando não era o do governo. Era o dos próprios eleitores.
O nome que ninguém quis dizer
Como mostramos ontem, a articulação contra Messias teve dois autores. Davi Alcolumbre, protagonista, fazendo discursos sobre "demora do Executivo" — depois de meses segurando ele próprio a sabatina. E Alexandre de Moraes, na coxia, operando por interpostos assessores, com aquela discrição característica de quem nunca falou com ninguém sobre nada e ainda assim consegue mover dezenas de votos.
A pergunta que a festa bolsonarista não quis fazer é a mais elementar: por que Alcolumbre e Moraes — adversários públicos da pauta conservadora há anos — convergiram para o mesmo placar contra o nome do Planalto? Porque, ao contrário do que o palanque vendeu, o que se decidiu ontem no Senado não foi a sorte de Messias. Foi a sobrevivência de um arranjo que interessa, simultaneamente, ao presidente do Senado e ao ministro mais influente da Corte.
O grupo que precisava continuar minoritário
Messias é amigo pessoal de André Mendonça. Mendonça, indicado por Bolsonaro, é o relator do Caso Master e o ministro que vem mantendo a Polícia Federal dentro do prazo, enquanto outros relatores teriam, digamos, "estudado o assunto" por anos. Hoje, no STF, Mendonça lidera um grupo minoritário. Com Messias na cadeira vaga, esse grupo deixaria de ser minoritário — e, pior para os interessados, passaria a ter peso em votações que envolvem diretamente o nome dos colegas de toga.
Em particular, as do Caso Master.
O que está nos autos — e nos prints
Convém recapitular para quem ainda acha que se trata de teoria conspiratória.
O Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, contratou o escritório da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, num acordo de R$ 129 milhões — pagos em parcelas mensais milionárias até a liquidação do banco. No dia da prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, o banqueiro trocou mensagens com o ministro pelo modo de visualização única — recurso desenhado para não deixar rastro. Numa das mensagens preservadas em print pelo próprio Vorcaro, ele pergunta: "Conseguiu bloquear?".
Moraes negou. O Globo desmentiu com os prints na mão. O ministro, então, preferiu não voltar ao assunto.
Em abril de 2024, Moraes participou em Londres de uma degustação de uísque de R$ 3,2 milhões bancada por Vorcaro num clube privado de Mayfair, ao lado do procurador-geral da República e do diretor-geral da Polícia Federal. Reunião informal, naturalmente.
Davi Alcolumbre, por sua vez, consta na agenda telefônica de Vorcaro e teve reuniões longas com o banqueiro à época da tentativa de compra do Master pelo BRB. Em 9 de março deste ano, parlamentares da oposição precisaram entrar no STF com mandado de segurança para forçar a instalação da CPMI do Banco Master — porque o presidente do Senado vinha se recusando, havia mais de um mês, a sequer ler o requerimento de criação. "Omissão inconstitucional", escreveram. Tradução política: estavam tentando trancar a porta antes que entrasse mais luz.
A festa errada
É nesse contexto que se deve ler o resultado de quarta-feira. Messias na vaga do STF significava, na prática, um voto a mais para o lado de Mendonça em qualquer deliberação envolvendo o Master. Significava um obstáculo a mais para Dias Toffoli — sorteado relator no fim de 2025 — continuar selando autos e revertendo quebras de sigilo. Significava, no limite, mais dificuldade para Alcolumbre seguir engavetando a CPMI sem custo político maior.
Por isso o nome caiu.
E por isso a festa bolsonarista é, no sentido clássico do termo, uma vitória de Pirro. Os festejados saíram do Senado com a faixa de campeão. Os reais vencedores saíram com algo mais útil: a manutenção de uma maioria confortável numa Corte que precisa, com urgência, decidir sobre eles próprios.
Quem paga a conta
Numa democracia que funcionasse, ministro do Supremo com indícios de obstrução de Justiça estaria afastado do cargo. Presidente do Senado citado em apurações teria, no mínimo, declinado da pauta. Em vez disso, os dois operam em conjunto contra a indicação que poderia atrapalhá-los — e parte da militância festeja como se o resultado não os afetasse.
Pirro venceu Roma duas vezes. Perdeu o exército nas duas. Resta saber quanto da credibilidade do que ainda se chama de oposição no Brasil sobreviverá a mais algumas vitórias como essa.