Conta de luz atrasada, dívidas em dois cartões de crédito e no cheque especial. Esse cenário poderia descrever a situação de muitas famílias brasileiras, mas é a realidade do restaurante Frango Cheff, especializado em galetos, instalado na Zona Norte do Rio. Cintia Alves, dona da empresa, conta que recentemente foi impedida de fazer compras a prazo no seu principal fornecedor devido aos atrasos frequentes para pagar os pedidos, algo que também tem acontecido com os impostos. A informação é do O Globo.
Histórias como a dela vêm se espalhando pelo país, como aponta o aumento da inadimplência das empresas. Números da Serasa Experian antecipados ao GLOBO mostram 9,1 milhões de CNPJs negativados em junho, com R$ 232,9 bilhões de dívidas em atraso — ambos os números são recorde da série histórica, iniciada em 2016.
Em maio, eram nove milhões de empresas inadimplentes, com um total de R$ 229,9 bilhões em dívidas. Assim como o Frango Cheff, as empresas do país acumulam mais de uma dívida. Em média, cada firma inadimplente tem 7,3 contas em atraso, que podem ser com o banco, com o fornecedor ou com uma empresa de serviços básicos, por exemplo. A dívida média é de R$ 25.508,96 por CNPJ.
Maior impacto em serviços
Segundo a pesquisa, as empresas de serviços são as mais inadimplentes, com 55,7% do universo analisado em junho, seguidas pelo comércio (32,2%). Do total de CNPJs negativados, 8,7 milhões são micro e pequenas empresas, cerca de 95% do total.
Esse é justamente o caso da firma de Cintia Alves, que atribui as dificuldades do negócio à redução do poder de compra das famílias, que têm evitado comer fora, e às canetas emagrecedoras. Ela relata uma queda drástica na demanda, pior do que na pandemia de Covid-19.
— As dívidas estão virando uma bola de neve. Nem na época da pandemia eu tinha os números que tenho hoje. Vendia em torno de uma tonelada de frango por mês. Hoje em dia, devo estar vendendo a metade ou menos. Meu frango zerava, as pessoas ficavam esperando para poder comprar, tinha fila de espera. Agora, toda semana sobra — afirma.
Maria de Fátima da Silva, dona da Henris Waffles Belgas, na Zona Oeste de São Paulo, também percebe queda na demanda por seus doces, tanto na vizinhança quanto nos pedidos via delivery. Além disso, ela diz que a “concorrência agressiva” de supermercados e os custos das plataformas de entrega estão corroendo o faturamento da empresa.
— Não estou dando conta. Estou no cheque especial e faço malabarismo para pagar com 15,83% de juros. Estou me enforcando — diz ela, que também tem um empréstimo para capital de giro do Pronampe, programa do governo que tem juros menores.
A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, destaca que o número de recuperações judiciais, instrumento acionado pelas empresas maiores quando não conseguem mais pagar seus credores, também vem subindo. Para ela, não dá para desassociar o quadro do endividamento das famílias, cuja negativação também vem renovando recordes desde janeiro de 2025 e chegou a 83,9 milhões em julho.
Em um ambiente com o custo de vida pressionado pela inflação, as taxas de juros muito elevadas encarecem o crédito e fazem as dívidas aumentarem rapidamente. No indicador da Serasa, o comprometimento da renda das famílias com parcelas de empréstimos, faturas de cartão e contas de serviços básicos é de 74,6%.
Nas faixas de renda mais baixas, encosta em 90%, o que indica que sobra pouco ou nenhum espaço para outros gastos ou imprevistos. Isso leva a um círculo vicioso, de maior restrição dos bancos para conceder linhas de maior qualidade, o que obriga empresas e pessoas a recorrerem a opções emergenciais e caras, como cheque especial e cartão.
Para a economista, os programas de renegociação de dívida ajudam, como o Desenrola para famílias e empresas, mas só promovem um alívio temporário, sem uma queda sustentada dos juros, cujo patamar elevado há anos explica a forte deterioração no mercado de crédito. Desde 2022, a Taxa Selic está em dois dígitos. Desde março, está em curso um ciclo de queda dos juros, mas a taxa só caiu 1 ponto percentual desde então, de 15% para 14%.
Bomba-relógio no crédito
Camila, da Serasa Experian, afirma que o BC tem feito um esforço para manter o ciclo de corte, mas a interpretação do mercado financeiro é a de que a autoridade monetária ficará limitada se a agenda fiscal não convergir para o mesmo sentido do aperto da economia. Ela argumenta que o governo atual fez uma agenda importante de recuperação de receitas, mas é necessário avançar mais em cortes de gastos, de modo a entregar superávits que consigam estabilizar a dívida pública.
Para Camila, portanto, há uma “bomba-relógio” a ser desarmada para impedir um cenário de queda abrupta do crescimento econômico.
— Existe bastante preocupação de qual vai ser a capacidade do setor produtivo conseguir manter esses empregos. Temos uma bomba-relógio a ser desarmada, para que a gente consiga desacelerar de maneira gradual, e não de maneira abrupta. Este é o ponto, de desacelerar e não de entrar em ambiente recessivo — diz a economista.
A economista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria Integrada, espera que os programas de renegociação de dívidas deem um alívio temporário nos indicadores de inadimplência. No começo de 2027, a expectativa é que comece uma queda mais consistente, vinculada à percepção de que o governo, independentemente de quem ganhe a eleição, tomará medidas de ajuste fiscal, abrindo espaço para uma redução mais forte da taxa básica de juros.
Caso contrário, sem nenhum sinal de um mínimo de equalização das contas públicas, Isabela diz que os juros devem se manter elevados, e o governo, sem espaço fiscal, não poderá continuar com os programas de renegociação, resultando em uma nova onda de alta na inadimplência.
— Aos poucos, isso poderia levar a uma recessão econômica, não em 2027, mas em 2028. As empresas acabam quebrando, sem ajuda do governo federal, sem espaço fiscal, e ainda tem o tarifaço. A equalização fiscal, ainda que a mínima possível, é necessária para haver alívio — avalia Isabela.
O ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, Paulo Pereira, concorda que uma solução definitiva para o endividamento depende de uma redução dos juros, mas diz que, sem os programas de renegociação, a situação seria pior.
Para os pequenos negócios, o Desenrola funciona trocando dívidas mais caras pelas linhas subsidiadas pelo governo, o ProCred360, para firmas com faturamento de até R$ 360 mil por ano, e o Pronampe, para empresas com receita de até R$ 4,8 milhões. Pereira revela que já foram 185 mil repactuações no Pronampe, renegociando R$ 26 bilhões em dívidas, e 47 mil no ProCred360, o que representa R$ 2 bilhões.
— O Brasil deve entrar na rota de redução de juros, já deveria ter entrado, mas pressões internacionais atrapalharam essa rota. O fiscal está mais equilibrado hoje do que era há quatro anos — defende o ministro, citando ainda a necessidade de adoção de medidas microeconômicas para evitar juros abusivos.