Flávio Bolsonaro (PL-RJ) promete pautar a CPMI do Banco Master na próxima sessão do Congresso. O PT, que durante semanas hesitou, agora também diz querer a comissão, especialmente após a derrota de Messias no Senado. Mas a disposição petista soa mais como blefe do que como convicção. E por um motivo simples: quando se percorre o mapa de conexões entre o Banco Master e a política brasileira, nenhum partido aparece tão enredado quanto o PT, especialmente o PT da Bahia.
A relação não começa em Brasília. Começa em Salvador, no governo estadual, e tem nome: CredCesta.
O cartão de crédito consignado voltado a servidores públicos baianos foi criado em 2018, durante o governo de Rui Costa (PT), atual ministro da Casa Civil. A operação nasceu a partir da privatização da Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), que incluía a rede de supermercados Cesta do Povo. O comprador foi o empresário baiano Augusto Ferreira Lima, o "Guga", que pagou R$ 15 milhões e assumiu as dívidas. Rui Costa minimizou o valor à época, dizendo ter "livrado o povo da Bahia de um prejuízo de quase 200 milhões por ano", conforme declaração dada a jornalistas durante o Carnaval de Salvador em fevereiro de 2026.
- > Detalhe: isso já foi bastante explorado na CPMI do INSS. Primeiro Rogério Marinho citou em entrevista (que viralizou), depois Jacques Wagner foi tirar satisfação e foi atropelado pela segunda vez. Assista nos vídeos abaixo:
O que Rui Costa não explica é o que veio depois. Guga Lima levou o CredCesta ao Banco Master ao se associar a Daniel Vorcaro por meio do então Banco Voiter, posteriormente rebatizado como Banco Pleno, conforme revelou a Gazeta do Povo. O modelo permitia descontar parcelas diretamente da folha de pagamento dos servidores.
E o governo petista da Bahia tratou de blindar o negócio: em janeiro de 2022, ainda sob Rui Costa, um decreto restringiu as hipóteses de portabilidade dos consignados, impedindo que servidores migrassem seus contratos para bancos com juros menores, como revelou a Gazeta do Povo. Servidores presos a taxas de quase 6% ao mês tiveram que recorrer à Justiça para tentar se livrar do Master. A Associação dos Funcionários Públicos do Estado da Bahia (Afpeb) entrou com ação pedindo o fim da exclusividade, mas foi considerada ilegítima para propor a demanda tanto em primeira quanto em segunda instância.
O sistema continuou operando nos governos de Rui Costa e de seu sucessor, Jerônimo Rodrigues (PT), com as associações ASTEBA e ASSEBA atuando como intermediárias na concessão de crédito consignado. Segundo documentos revelados pela imprensa baiana, as duas entidades operaram mais de R$ 8 milhões em consignado com diretorias praticamente inalteradas por anos, sustentadas pelo chamado Grupo Terra Firme, ligado ao próprio Guga Lima. O esquema só funcionava com autorização formal dos governos petistas, via Secretaria da Administração (SAEB).
Guga Lima foi preso em novembro de 2025 na Operação Compliance Zero da Polícia Federal, que investiga fraudes bilionárias em carteiras de crédito que o Master vendeu ao BRB. O empresário já acumula sete requerimentos na CPI do INSS para depoimento e quebra de sigilo. E sua trajetória conecta diretamente o PT da Bahia ao coração do escândalo.
Mas o CredCesta é apenas um capítulo. O que liga o partido de Lula ao Master vai muito além da Bahia.
O senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado e figura central do PT baiano ao lado de Rui Costa, confirmou ao Metrópoles ter indicado o ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski para prestar consultoria jurídica ao Banco Master. O contrato, firmado em agosto de 2023, previa pagamento de R$ 250 mil por mês ao escritório Lewandowski Advocacia.
O detalhe revelado pela colunista Andreza Matais: os pagamentos continuaram por 21 meses após Lewandowski assumir o Ministério da Justiça, em janeiro de 2024, totalizando cerca de R$ 6,5 milhões, dos quais R$ 5,25 milhões foram pagos com ele já no cargo. Lewandowski deixou a sociedade do escritório ao tomar posse, mas seus filhos permaneceram como sócios e seguiram recebendo.
E tem mais. Segundo o Metrópoles e O Tempo, Wagner também é apontado como responsável pela indicação do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega para o Master, em um contrato de consultoria de R$ 1 milhão por mês. O objetivo de Mantega era ajudar a viabilizar a venda do banco ao BRB, operação barrada pelo Banco Central em setembro de 2025. Wagner nega ter feito essa indicação específica, mas confirmou a de Lewandowski.
Ou seja: o líder do governo Lula no Senado funcionava como uma espécie de headhunter político do Banco Master, conectando o banqueiro Daniel Vorcaro a figuras de primeiro escalão do PT. A pergunta inevitável de uma CPMI seria: o que Wagner recebia em troca dessas indicações? E o que o governo da Bahia ganhou ao criar e proteger o monopólio do CredCesta em favor do Master?
Quando o PT diz querer a CPMI, é preciso considerar o que a comissão pode desenterrar. O CredCesta, estruturado e protegido por decretos de governos petistas na Bahia. As associações de fachada que operavam crédito consignado sem estrutura compatível. O contrato milionário de Lewandowski, indicado por Wagner, pago pelo Master enquanto o jurista comandava o Ministério da Justiça. O contrato de Mantega, também atribuído a Wagner. E a relação de Guga Lima, preso pela PF, com a cúpula do partido que governa o estado desde 2007.
A oposição quer a CPMI para desgastar o governo em ano eleitoral. Mas o PT, ao aceitar o jogo, corre o risco de ser o mais atingido. Não por adversários, mas pela própria história. O Banco Master não era um corpo estranho ao ecossistema petista. Era, em grande medida, um produto dele, especialmente na Bahia. E nenhuma comissão parlamentar de inquérito, uma vez instalada, respeita as intenções de quem a criou.
Quando se abre a caixa, não se controla o que sai de dentro.