Em quarenta e tantos anos de janela, não me lembro de ter visto tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo. Não é a impressão de quem envelheceu e passou a achar que o passado era melhor. É inventário. Vamos aos fatos.
Primeiro item: A corte em guerra consigo mesma.
No dia 1º deste mês, o ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, hoje preso. Traduzindo: um ministro tornou público o que a polícia apurou sobre outro ministro.
A resposta veio pelo caminho mais previsível. Moraes usou o inquérito das fake news para apontar supostas irregularidades de Mendonça. O procurador-geral Paulo Gonet, citado nas mensagens, pediu a anulação do relatório. O presidente da Corte, Edson Fachin, deu cinco dias úteis para que todos se expliquem. No domingo à noite, Mendonça liberou o caso para julgamento no plenário. Fachin agora decide quando pauta.
Enquanto isso, no Senado, 55 pedidos de impeachment contra Moraes dormem na gaveta de Davi Alcolumbre, que já avisou que não vai pautar nenhum.
O país assiste ao seguinte espetáculo: um tribunal que passou os últimos anos ensinando ao Brasil que ninguém está acima da lei, descobriu, na semana passada, que não tem no regimento uma única linha explicando como julgar um dos seus.
Segundo item: o filme.
No mesmo inquérito do Banco Master está o financiamento de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro cerca de US$ 24 milhões( algo em torno de R$ 134 milhões) para a produção. Os aportes rastreados até agora chegam a US$ 12,3 milhões, boa parte por um fundo sediado no Texas, administrado por um advogado próximo a Eduardo Bolsonaro.
Flávio diz que foi patrocínio privado, sem dinheiro público, sem contrapartida. É a versão dele e precisa constar. A Polícia Federal trabalha com outra hipótese: corrupção passiva e lavagem. Há um detalhe que os investigadores acham eloquente: o patrocinador não queria aparecer como patrocinador.
Terceiro item: os aposentados.
Entre 2019 e 2024, a Controladoria-Geral da União calcula que R$ 6,3 bilhões foram descontados dos benefícios de aposentados e pensionistas por associações que a maioria deles nunca ouviu falar. Não foi desvio de emenda, não foi superfaturamento de obra. Foi dinheiro tirado, todo mês, do contracheque de quem ganha um salário mínimo.
O principal operador apontado pela PF, Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", está preso. Ao lado dele aparece a lobista Roberta Luchsinger. E ao lado dela aparece Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, hoje alvo de três inquéritos.
As defesas negam irregularidade. Mas o registro dos acontecimentos é constrangedor por si só. Lulinha e o "Careca do INSS" estiveram em Lisboa e Madri em datas coincidentes ao menos três vezes em 2024; numa delas, embarcaram no mesmo voo, com passagens compradas com quatro minutos de diferença. A PF identificou R$ 1,5 milhão pagos pelo lobista à consultoria de Roberta Luchsinger, em parcelas de R$ 300 mil. Perguntado pelo próprio contador quem receberia o dinheiro, Antunes respondeu: "o filho do rapaz". O relatório não diz quem é o rapaz. E há ainda os R$ 217 mil em despesas pessoais que a lobista pagou, segundo a PF, para o então chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, no mesmo período em que negociava contratos no Ministério da Saúde. Ele diz que era empréstimo pessoal, já quitado. Foi exonerado em julho.
Perguntado sobre a lobista no Jornal Nacional, o presidente disse que nunca a tinha visto na vida. Existem fotos dos dois juntos, publicadas por ela mesma.
O que sobra disso tudo.
Os dois principais candidatos à Presidência da República têm, cada um, um escândalo financeiro com nome, sobrenome e número de inquérito. O tribunal que decidiria sobre ambos está paralisado por uma briga interna. O Congresso, que poderia arbitrar, prefere não pautar. E o Ministério Público, que deveria fiscalizar, aparece citado nas mensagens.
E o eleitor, hein ? Está preocupado com o bolso. Com quase 82% das famílias endividadas, é a única variável que ainda pode mexer com essa eleição até 4 de outubro. A indignação, ao que tudo indica, já se gastou.
A verdade é que em nosso país o escândalo deixou de ser exceção e virou paisagem. O risco maior não é o Brasil estar de ponta-cabeça. É já ter aprendido a viver assim.
Natal, 07 de setembro de 2026