Em menos de uma semana, o Comando Vermelho foi alvo de duas operações de grande porte que escancararam a dimensão financeira da maior facção criminosa do Brasil. Na quinta-feira (18), a Polícia Civil do Ceará deflagrou a Operação Torniquete, prendeu 28 pessoas em oito estados e obteve da Justiça o bloqueio de contas bancárias que movimentaram mais de R$ 1 bilhão nos últimos três anos.
No domingo (22), a Polícia Federal foi ao Suriname prender um dos operadores financeiros do grupo e bloqueou outros R$ 500 milhões ligados à facção. O recado é claro: o CV não é apenas uma organização criminosa — é um conglomerado financeiro ilícito com alcance nacional e internacional.
A operação
A Torniquete cumpriu 46 mandados de prisão por organização criminosa e lavagem de dinheiro, com ações simultâneas no Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Amazonas, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins. Somente no Ceará, 41 decisões judiciais foram executadas. Foram apreendidos 64 veículos, muitos deles de luxo — entre SW4, Hilux e Compass —, além de armas, munições, imóveis e cerca de R$ 100 mil em espécie. Dois advogados estão entre os investigados, suspeitos de participação direta na movimentação financeira do grupo. Quinze alvos com mandados de prisão preventiva seguem foragidos.
A operação foi coordenada pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas do Interior Norte (Draco-Norte) e pela Delegacia de Combate aos Crimes de Lavagem de Dinheiro (DCLD), com apoio do Departamento de Inteligência Policial.
Como o CV acumula tanto patrimônio?
R$ 1 bilhão movimentado em três anos por uma célula regional do CV no Ceará não é anomalia — é parte de um modelo de negócios criminoso altamente estruturado. A facção opera em pelo menos três camadas financeiras.
A primeira é a arrecadação. O CV cobra taxas sobre o tráfico de drogas, o transporte de cargas, o comércio informal e até o acesso a serviços básicos em territórios que controla. Nos estados do Norte e Nordeste, onde a facção expandiu significativamente nos últimos anos, essa arrecadação cresce na mesma velocidade que o domínio territorial.
A segunda é a circulação. O dinheiro passa por laranjas, empresas de fachada, contas bancárias de terceiros e operadores financeiros especializados — alguns deles advogados, como revelou a Torniquete. A PF também identificou, na operação do Suriname, um esquema de compra de armamento pesado, incluindo fuzis AK-47, financiado com os mesmos recursos.
A terceira é a blindagem. O patrimônio acumulado é convertido em bens de difícil rastreamento: imóveis, veículos de luxo, participações empresariais e, cada vez mais, ativos no exterior. O Suriname, país com legislação financeira mais permissiva e fronteira porosa com o Brasil, tem sido usado como ponto de fuga tanto de pessoas quanto de recursos.
O que muda com o bloqueio?
Na teoria, o bloqueio judicial de R$ 1 bilhão é uma das maiores medidas de constrição patrimonial já aplicadas contra o crime organizado no Brasil. Na prática, os especialistas são mais cautelosos.
O valor bloqueado corresponde à movimentação rastreada das contas — não necessariamente ao saldo disponível ou ao patrimônio real da organização. Grande parte dos recursos já pode ter sido convertida em bens, transferida para o exterior ou dissipada por outros canais antes da operação. Além disso, a capacidade do sistema de Justiça de converter bloqueios em perdas efetivas e permanentes para as facções ainda é limitada, com processos que se arrastam por anos.
O que as operações desta semana sinalizam, porém, é uma mudança de foco das forças de segurança: a perseguição não é mais apenas ao traficante na ponta, mas ao operador financeiro que mantém o esquema de pé. Prender advogados e tesoureiros do CV, ir ao Suriname atrás de quem movimenta o dinheiro e bloquear contas antes de qualquer condenação são marcas de uma estratégia mais sofisticada — ainda que insuficiente diante da escala do problema.
O Comando Vermelho faturou mais de R$ 1 bilhão em três anos numa única frente de atuação. A pergunta que fica não é só como o Estado vai bloquear esse dinheiro — mas como vai impedir que o próximo bilhão seja acumulado.