A partida entre Bayern de Munique e Borussia Monchengladbach, na última sexta, marcou a vida da família Cardozo. Durante o segundo tempo, o jovem Maycon, de apenas 17 anos, entrou em campo na Allianz Arena e provocou sorrisos a milhares de quilômetros de lá. Mais precisamente na cidade de Santos, onde reside o pai, Douglas.
A matéria é do ge. Ex-atacante, Douglas tem como um dos pontos mais marcantes da carreira o início da trajetória como profissional. Criado nas categorias de base do Santos, justamente o clube da cidade onde mora até hoje, ele fez parte da geração Diego e Robinho, responsável por levar o Peixe ao título do Brasileirão de 2002.
Durante a trajetória profissional, Douglas passou quase uma década na Tailândia, onde o filho Maycon deu os primeiros chutes em um projeto do Bayern de Munique. De lá, o garoto foi para a Alemanha e trabalhou até ganhar a primeira chance na sexta-feira passada.
– Viemos de férias ao Brasil, e o Maycon ainda tinha 11 anos. Fui conversar com pessoal do Santos, pois ele se destacava nas escolinhas, inclusive do projeto na Tailândia. Quando precisava voltar, o Paulo Robson pediu para ele ficar, mas era difícil ficar longe dele. Voltei, um alemão chamado Marco me ligou e disse que abriria um projeto do Bayern – relembra, em entrevista ao ge.
Segundo Douglas, o Bayern mapeou mais de 20 mil jovens na Tailândia e chegou a um número de 25. Graças a relatos e vídeos publicados no Youtube, o jovem Maycon chamou a atenção e ganhou uma chance para treinar no projeto.
– Falei para ele: “Se você ficar, vai continuar treinando com o pai, estarei perto”. Mas o que você acha melhor? Ele, sabendo o que era melhor, preferiu ir para o Bayern. Com 11 anos, autorizei ele ir a Bangok, que ficava a uns 100 km de onde morávamos. Foram momentos difíceis, pois se distanciar do filho é difícil, ainda mais em uma cultura diferente – desabafa.
Maycon passou a fazer parte do projeto World Squad do clube alemão. O atacante trabalhou com treinadores alemães, agradou e recebeu um convite para ir à Alemanha.
Em 60 dias, os asiáticos retornaram, e o filho de Douglas permaneceu sob aprovação de Roy Makaay, lenda do clube. Aos 15 anos, aprovado pelo ex-atacante, veio o contrato de formação com o Bayern de Munique.
A ascensão foi rápida, conforme relata o orgulhoso pai, fruto de treinamentos que nasceram ainda no quintal de casa.
– Maycon e a Yasmim (filha), que são gêmeos, desde garotinhos, com um ano e meio, já faziam parte dos meus treinos. Ainda meu quintal era grande, e preparava treino coordenativos de passe, finalização em garrafas de água. Isso deu aquele gostinho, cresceu no coração deles – relatou sobre os primeiros passos dos filhos na carreira.
Se Maycon vive na Alemanha e busca mais espaço no principal clube do país a partir da estreia como profissional, a filha Yasmin atua na categoria de base do Flamengo e sonha também em se tornar atleta como o pai. Ela soma passagens pela seleção brasileira de base.
Na Alemanha, afastado da família, o jovem brasileiro conseguiu chamar a atenção do técnico Vincent Kompany, que tratou de relacioná-lo pela primeira vez na sexta-feira.
– Maycon vem crescendo desde o sub-17. Teve uma passagem importante na Champions League (da categoria) e conseguiu se destacar, mesmo sendo um jovem que veio da Tailândia. Quando perceberam que ele estava se destacando, chamaram para treinar no profissional – comentou.
– Há três semanas, chamaram ele, que conversou com a gente, para disputar o sub-23, que é a quarta divisão do Alemão. São profissionais, adversários de 30, 35 anos. Em dois jogos, ele teve uma boa performance, com 17 anos, e na quinta-feira ele me faz uma chamada e diz: “Pai, fui convocado para o profissional” – disse.
Maycon Cardozo, que assinou na semana passada a ampliação do contrato até 2028, atuou 36 minutos na vitória por 4 a 1 do Bayern sobre o Borussia Monchengladbach.
O time de Munique lidera a Bundesliga com 66 pontos, 11 a mais do que o Borussia Dortmund.
Santos sempre Santos
Embora a atenção se divida entre Munique e Rio de Janeiro para acompanhar o início das carreiras dos filhos Maycon e Yasmim, Douglas reside em Santos e recentemente começou a trabalhar como treinador da categoria sub-20 do São Vicente.
A ligação com a cidade e o clube que o revelou se tornaram eternas.
– Minha relação é ótima, eu moro em Santos. Sempre estou presente no estádio quando posso. O processo é longo, sabemos; é importante o planejamento, e a presença do Neymar ajuda. O time precisa se unir ainda mais como éramos em 2002 e em 2004 para voltar a trazer a alegria – disse.
A geração de 2002 surge como algo inesquecível na carreira de Douglas, que carrega na memória alguns feitos, como o primeiro gol.
– Eu já era santista pelo meu pai. Foi um grande prazer ter vestido essa camisa e ter passado marcas históricas pelo clube. Meu primeiro gol foi no Rio-São Paulo, o Celso Roth acreditou na molecada. Momentos difíceis para uns são momentos bons para outros, como Diego, Robinho. Fiz um gol após um cruzamento do Michel, mas aí o Romário empatou o jogo na minha estreia – relembra.
A partir do título de 2002, o Santos voltou a figurar como protagonista do futebol brasileiro. Como ex-jogador e torcedor, Douglas não tem dúvida que a conquista foi o ponto de virada na cultura do clube.
– Aí veio o Emerson Leão, que deu confiança, que com a disciplina que tinha, mantendo a molecada focada para a gente alcançar o título do Brasileirão de 2002. Título que tirou os torcedores tímidos das suas casas com aquela alegria que o Santos jogava. Fomos para a final da Libertadores, campeões brasileiros em 2004, depois a era Neymar...foi o início para uma nova história – disse.
Entre as lembranças mais marcantes, além da conquista do Brasileirão, um gol específico. Douglas foi o responsável por anotar o 1000º gol do Peixe no Campeonato Brasileiro, honraria que rendeu até placa para o jogador na Vila Belmiro.
– Ficar marcado na história do Santos é muita gratidão. Elano bateu uma bola prensada, aí sobrou e coloquei a cabeça para meter a bola no barbante – completa.