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Vorcaro monitorava celular de ex-diretor do BC e ordenou a Sicário ‘ataque de mídia’ para ‘moer’

Daniel Vorcaro e Renato Dias de Brito Gomes — Foto: Ana Paula Paiva/Valor e Alessandro Dantas/PT no Senado

Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) mostram que Daniel Vorcaro ordenou a Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, que organizasse um “ataque de mídia” para “moer” o então diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central (BC), Renato Gomes, principal defensor da liquidação do Banco Master e do veto à venda para o BRB. Trechos dos diálogos também sugerem que o banqueiro pode ter grampeado o celular de Gomes, o que lhe teria permitido rastrear sua localização. 

Nas mensagens, Vorcaro aparece pedindo a Sicário informações pessoais do ex-diretor, como seu endereço em Brasília e a existência de eventuais processos criminais contra ele. O capanga do dono do Master não teve muito sucesso na montagem do dossiê – na resposta, ele diz que Gomes era “muito limpo”. Mas se ofereceu para “fazer uma visita no Rio” ao diretor do BC. 

De acordo com a PF, “Sicário” coordenava a “Turma”, um grupo que monitorava e intimidava desafetos, inclusive pessoalmente, com ameaças. Mourão morreu em 6 de março deste ano, dois dias após ser preso e atentar contra a própria vida na cela da Superintendência da Polícia Fem Belo Horizonte. 

Na manhã de 3 de setembro de 2025 — o veto do Banco Central à venda do Master ao BRB seria divulgado naquela noite —, Vorcaro escreveu a Mourão. 

“Consegue checar no celular Renato [sic] onde ele está? Rio ou Bsb (Brasília)?”, pede Vorcaro a Mourão, que respondeu imediatamente: “Vou pedir isto aqui para a turma. Agora”. 

Não há registro de resposta no celular de Vorcaro. De acordo com a agenda pública do ex-diretor que consta no site do BC, naquele dia Gomes fez “despachos internos” no Rio de Janeiro. 

Gomes era, naquele momento, o principal obstáculo à concretização do negócio com o BRB. Pelo menos desde julho ele já defendia que o BC interviesse no Master, não só em razão dos seguidos problemas de liquidez como também por conta da descoberta de fraudes na venda de carteiras do Master ao banco estatal de Brasília. 

A preocupação com as investigações conduzidas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal sobre as fraudes no Master era evidente nas conversas de Vorcaro – do advogado Walfrido Warde ao publicitário Thiago Miranda, passando por aliados como o ex-ministro de Dilma Guido Mantega. Os diálogos sugerem que Vorcaro discutiu com Warde inclusive acionar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que de acordo com a apuração da equipe da coluna chegou a procurar o presidente do BC, Gabriel Galípolo, para pressionar pela autorização do negócio com o BRB. 

De acordo com os diálogos, em 7 de agosto de 2025 Vorcaro pediu a Mourão para “levantar tudo” sobre Gomes. Em resposta, o auxiliar envia um dossiê anexo com as informações em uma hora, acompanhadas por mensagens encaminhadas de outros capangas, mas diz que o diretor é “muito limpo”. 

“Tem pouca informação sobre ele. Não tem nenhum veículo registrado no nome dele, emprego só no Banco Central mesmo. Nenhum processo criminal contra ele, nada. Muito limpo”, enviou Mourão, e Vorcaro respondeu: “Precisava endereço Brasília [sic]. E dados mais atualizados”. 

Em seguida, Mourão afirmou que Gomes não aparentava ter residência fixa na capital federal, sugeriu “visitá-lo” no Rio de Janeiro e, ainda, indicou ter acesso a aplicativos de delivery vinculados ao ex-diretor do BC: 

“Se quiser que (eu) faça uma visita no Rio, só falar. Pelo histórico, ele fica em hotel, mas vou pegar o histórico de pedidos dele no Ifood, aí te informo todos os endereços em que ele faz pedido”, escreveu o Sicário, que acabou não sendo respondido por Vorcaro. 

Procurado pela equipe da coluna, Renato Gomes não se manifestou a respeito do caso. 

 

Moer durante uma semana

 

Já no dia 31 de agosto de 2025, Vorcaro pede para promover “um ataque de mídia ao Renato” utilizando o site Diário do Centro do Mundo (DCM). Como mostramos no blog, o dono do Master articulou pagamentos ao portal de notícias como parte de sua estratégia de se blindar de publicações da imprensa consideradas negativas. 

“Me passa tudo como quer, que já deixo preparado e pronto”, responde Mourão. “É para moer ele a partir de amanhã durante uma semana”, conclui Vorcaro. 

Três dias depois, o Banco Central anunciaria o veto à venda do Master para o BRB, jogando uma pá de cal sobre as pretensões de Vorcaro. 

Entre 2024 e 2025, o Master repassou ao BRB carteiras de crédito consignado avaliadas em R$ 12 bilhões de reais. No segundo semestre de 2025, ao auditar a operação de compra proposta pelo banco de Brasília, técnicos do próprio BC descobriram que os contratos que lastreiam os créditos eram falsos e comunicaram à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal (MPF). 

A investigação que se deu a partir daí desencadeou a operação que prendeu Vorcaro e outros seis executivos ligados ao esquema, além de levar à liquidação do Master e ao afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, do cargo. Gomes foi um dos que mais trabalhou pela liquidação do banco de Vorcaro. 

Em outubro deste ano, Gomes assumiu a presidência da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representa as instituições médias. Ele liderou a diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do BC entre 2022 e 2025. 

No cargo, Gomes defendeu uma intervenção no Master em razão de irregularidades constatadas pelo grupo de trabalho interno que escrutinava os termos do negócio e a saúde financeira do banco de Vorcaro e também do BRB. O posicionamento gerou um racha na diretoria do BC e colocou Gomes em rota de colisão com Aílton Aquino, diretor de Fiscalização. 

Uma intervenção àquela altura já era avaliada como provável causadora de uma espécie de hecatombe no mundo político. Desde que o negócio foi anunciado, em março de 2025, senadores e deputados abortaram uma CPI para investigar a venda, e políticos de diversos partidos fizeram lobby nos bastidores do Congresso e do Executivo pela aprovação da compra.

 

MALU GASPAR - O GLOBO

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